Carne bovina: demora na reabertura das vendas à China pode ser manobra de renegociação, avaliam economistas

Desde a confirmação de dois casos atípicos de vaca louca, o maior parceiro comercial do Brasil ainda não reestabeleceu os negócios para a proteína bovina

Hoje, quarta-feira, 6/10, o Brasil completa 32 dias sem poder exportar carne bovina para a China. A tese mais provável para esse longo tempo de espera seja uma manobra para o país asiático renegociar o comércio de carne com o Brasil.

É o que avaliam os economistas Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) e Roberto Dumas, especialista em mercado chinês e professor do Insper, uma instituição sem fins lucrativos de ensino superior e pesquisa reconhecida como referência nas áreas de Administração, Economia, Direito e Engenharia.

Foto: Divulgação

“Qual que é o motivo? Realmente é um estoque maior de carne na China? É uma necessidade de renegociar preço? Se a gente for analisar, a China chegou a pagar em agosto US$ 5,99 por quilo. É o melhor pagador depois da União Europeia, que paga muito bem pela carne, assim como os Estados Unidos”, diz Carvalho.

Carvalho e Dumas foram os convidados do DBO Entrevista, que foi ao ar nessa segunda-feira, 4/10. A tradicional live do Portal DBO discutiu os reflexos dos exatos 30 dias de negociações paralisadas com a China (assista a entrevista, na íntegra, ao final do texto).

Desde a confirmação de dois casos atípicos da doença vaca louca, o maior parceiro comercial do Brasil ainda não reestabeleceu o comércio para a proteína bovina.

Foto: Divulgação/Insper

“Parece que é uma tática de negociação. Alguém pode perguntar: ‘é 100% tática de negociação?’ A resposta é: não sei. O fato é que eles estão com problema com a Evergrande [segunda maior empresa imobiliária da China] e com problema de crise energética, talvez o boi tenha ficado para segundo plano”, explica Dumas.

Exportação recorde

Mesmo com a paralisação das compras por parte dos chineses no mês de setembro passado, os embarques para o país asiático foram os maiores da história: 112,1 mil toneladas, 5,8% a mais sobre o mês de agosto, que era o recorde até então, com 105,9 mil toneladas.

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Os dados são das plataformas AgroStat, do Ministério da Agricultura, e Comex Stat, do Ministério da Economia.

As exportações de carne bovina para a China passaram a crescer a partir de agosto de 2019. O volume mensal exportado saiu de 29,1 mil toneladas para 39,5 mil toneladas, em setembro de 2019.

“A China se torna o principal parceiro brasileiro nesse setor e somente o ano de 2021 de toda a carne bovina exportada 46,75% para ser exato, quase 47% ou quase cinquenta por 50% foi para China, sem considerar Hong Kong”, diz Carvalho.

O pesquisador do Cepea reitera que é um tanto prejudicial a dependência, seja de um grande comprador como um grande vendedor. Mas essa questão, no agro, não é uma exclusividade do mercado de carnes: a soja passa pelo mesmo risco, pois o grande comprador do grão brasileiro é também a China.

O que resta a fazer?

Para Carvalho, o que resta fazer o pecuarista e a indústria frigorífica é justamente tentar renegociar com os compradores.

Para o pecuarista a situação é ainda mais complicada, pois gado esperando no cocho significa mais despesas.

“Para o produtor sobra essa sobrecarga porque não tem muito o que fazer. Se ele deixar o boi no confinamento é mais custo para ele. Então é tirar ou não tirar o boi”, diz o pesquisador do Cepea.

Só quem tem tiver sua parte de gestão afinada pode fazer, categoricamente, essa resposta. Se o produtor ainda tiver margens, o ideal seria segurar, pois a valorização da arroba pode voltar com o restabelecimento do mercado entre os países; caso contrário, se o boi já estiver dando prejuízos além da conta, o momento é vender.

Produtor x Governo chinês

A síndrome de fragilidade das negociações sobre o mercado de carne bovina pode ter uma raiz estrutural de como são estabelecidas as negociações entre o Brasil e a China, segundo a avaliação de Dumas.

Para ele, na grande maioria das vezes é o produtor por intermédio de entidades que está encabeçando todas as negociações. Ao passo que, do outro lado da mesa de negociação está o governo chinês, que representa os compradores, garantindo-lhes total suporte.

“O produtor brasileiro é um herói porque vai derrubando qualquer problema, qualquer reticência, qualquer mal-entendido político. Esse produtor vai falando, ‘vamos deixar os problemas de lado e vamos fazer negócio’”, diz Dumas.

Confira a entrevista na íntegra:

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