Mais de 200 trabalhadores de fábricas de carne nos EUA morreram de Covid-19

Confira a reportagem do The Washington Post sobre os impactos da pandemia na indústria norte-americana

Neste domingo (13/9), o The Washington Post, um dos mais importantes jornais dos Estados Unidos, publicou uma longa reportagem realizada pela jornalista Kimberly Kindy, repórter investigativa que tem no currículo prêmios como Pulitzer e George Polk. Confira a reportagem traduzida para o português pelo Portal DBO:

Os fiscais federais sabiam de sérios problemas de segurança em dezenas de fábricas de carne do país, que se tornaram focos mortais do coronavírus nesta primavera, mas levaram seis meses para agir, sendo que só recentemente exigiram mudanças para proteger os trabalhadores.

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As penalidades financeiras para uma fábrica da Smithfield Foods, em Dakota do Sul, e uma fábrica da JBS, no Colorado, emitidas na semana passada totalizam cerca de US$ 29 mil – uma quantia que os críticos disseram ser tão pequena e que não serviria de incentivo para os frigoríficos do país assumirem distanciamento social e outras medidas visando proteger seus funcionários.

Trabalhadores de frigoríficos, líderes sindicais e grupos de segurança do trabalho também estão indignados porque as duas fábricas, com alguns dos surtos mais graves do país, foram notificadas apenas por três violações de segurança e que centenas de outras fábricas de carne não receberam multas. As empresas criticaram os fiscais federais por demorar muito para orientá-los sobre como manter os trabalhadores seguros.

Pelo menos 42.534 trabalhadores testaram positivo para o novo coronavírus em 494 frigoríficos, e pelo menos 203 morreram desde março, de acordo com uma análise da Food Environmental Reporting Network, uma organização de notícias investigativas sem fins lucrativos.

Na fábrica da Smithfield, na cidade de Sioux Falls, no Estado de Dakota do Sul, 1.294 trabalhadores testaram positivos para o coronavírus e quatro morreram. Na fábrica da JBS USA, em Greeley, no Colorado, 290 testaram positivo e seis morreram.

No ano passado, a receita da Smithfield foi de quase US$ 14 bilhões. A JBS – o maior frigorífico do mundo – faturou US$ 51,7 bilhões. Ambas as empresas, que atuam internacionalmente, disseram que as notificações são “sem mérito”, que elas serão contestadas e que já realizaram melhorias na segurança.

Foto: Smithfield/Divulgação

A Administração de Segurança e Saúde Ocupacional [nr. OSHA, na sigla em inglês, órgão do Departamento de Trabalho dos Estados Unidos] disse que as fábricas não forneceram um local de trabalho “livre de riscos reconhecidos que estavam causando ou provavelmente causando morte ou danos físicos graves aos funcionários, pois estavam trabalhando próximos uns dos outros e expostos” ao coronavírus.

As notificações também apontam que as empresas “não desenvolveram ou implementaram medidas oportunas e eficazes para mitigar exposições”.

Além de melhorar o distanciamento entre os funcionários, a OSHA ordenou que as empresas erguessem barreiras entre os trabalhadores quando isso não fosse possível. Para a Smithfield, a OSHA disse que a fábrica precisava ajustar as velocidades da linha de processamento “para permitir que os funcionários ficassem mais distantes”.

As empresas, os grupos de segurança do trabalho e trabalhadores das fábricas de carne criticaram a OSHA pelo tempo que a agência levou para concluir as investigações das fábricas.

“Onde eles estavam quando as pessoas foram adoecendo ou sendo hospitalizadas? Ou quando as pessoas estavam morrendo? Pense em quantas vidas poderiam ter sido salvas e quantas pessoas poderiam não ter ficado doentes” disse Debbie Berkowitz, especialista em segurança do trabalhado da organização sem fins lucrativos National Employment Law Project.

Mark Lauritsen, vice-presidente e diretor de processamento, embalagem e fabricação de alimentos da United Food and Commercial Workers International Union (UFCW), disse acreditar que a repentina emissão de notificações, meses depois de os casos de coronavírus estarem crescendo nas fábricas, é motivada pela chegada da eleição presidencial nos Estados Unidos.

“Eles verificaram e fecharam os olhos para isso por meses. A administração de Trump tomou essas decisões para não intervir e ajudar os trabalhadores”, disse Lauritsen. “Agora eles estão tentando dar a impressão de estar fazendo seu trabalho para que possam se proteger politicamente. As pessoas neste país se lembram do horror do que aconteceu com esses trabalhadores.”

A Casa Branca não respondeu a um pedido de comentário [nr. até o fechamento da matéria].

Das quase 10.000 solicitações relacionadas ao vírus que a OSHA recebeu para investigar os locais de trabalho em todas as indústrias, desde o início de março deste ano, Smithfield e JBS são as únicas que até agora resultaram em uma notificação e multa. Os registros mostram que sobre as queixas não relacionadas, a OSHA emitiu seis notificações e multas para outras fábricas além da indústria de carne, que resultaram de relatórios de rotina que a agência recebeu de hospitais e empregadores de trabalhadores hospitalizados ou em estado fatal.

Os surtos massivos de coronavírus em fábricas de carne – e a falta de máscaras e distanciamento social que alimentou a propagação do vírus – foram amplamente relatados pela mídia desde março e abril.

Keira Lombardo, vice-presidente executiva de assuntos corporativos e de compliance da Smithfield, criticou a OSHA dizendo que a agência demorou a emitir orientações para os frigoríficos, acrescentando: “Apesar desse fato, descobrimos por conta própria”.

Ela também disse que a empresa “simultânea e repetidamente pediu à OSHA que  visitasse as operações em março e abril. Eles não o fizeram.”

O JBS também criticou o relatório da OSHA à pandemia, dizendo que a agência não forneceu orientação até o final de abril sobre as formas de remediar os problemas de segurança que teriam evitado a disseminação do coronavírus nas fábricas.

“A citação da OSHA (…) tenta impor um padrão que não existia em março, pois lutamos contra a pandemia sem orientação”, disse a JBS em nota. “Cada medida proposta na notificação foi implementada meses atrás em Greeley. Essas medidas teriam sido informadas em fevereiro. Hoje, eles nem mesmo atendem aos nossos padrões internos.”

O North American Meat Institute, uma associação comercial, também criticou o “conselho governamental inconsistente e às vezes demorado” em um comunicado e disse que a indústria rapidamente tomou medidas para proteger os trabalhadores, quando o contágio do vírus começou crescer em março. Ele também disse que os casos confirmados de coronavírus entre os trabalhadores da fábrica caíram significativamente nos últimos meses por causa das medidas tomadas nas fábricas.

Em resposta às críticas, a OSHA disse que seu processo investigativo é “exaustivo” e que atendeu aos mandatos legais porque tem “um prazo de prescrição de seis meses para concluir qualquer investigação e emitir uma notificação”. Em resposta à declaração da Smithfield, a OSHA também disse: “Os riscos e precauções necessárias eram bem conhecidos na época e a Smithfield não os abordou em tempo hábil.”

Kim Cordova, presidente do UFCW Local 7, que representa os funcionários da JBS, disse temer que as pequenas multas possam na verdade piorar as condições dos trabalhadores da fábrica.

“Essas pequenas multas não significam nada para (proprietários de fábricas de carne). Elas dão um incentivo para fazer esses profissionais trabalharem mais rápido e com mais afinco nas condições de trabalho mais inseguras que se possa imaginar”, disse Cordova, referindo-se à multa de US$ 15.615 da JBS.

Sandra Sibert, representante sindical da fábrica de Smithfield que dessossa suínos no turno da manhã, disse que enviou e-mails em meados de março para a Casa Branca e para o departamento de recursos humanos da Smithfield, contando sobre suas graves preocupações: milhares de funcionários estavam trabalhando sem máscaras, os trabalhadores ficavam como se estivessem unidos como “atum em lata” nas linhas de processamento, e várias áreas da fábrica não tinham desinfetante para as mãos.

“Eles não sentaram comigo”, disse Sibert, que testou positivo para o coronavírus no início de abril e levou várias semanas para se recuperar. “Eles apenas enviaram e-mails ou (deixaram) mensagens dizendo que apreciaram minhas preocupações.”

Quando os inspetores da OSHA chegaram à fábrica em 20 de abril, ela estava esperançosa, mas também ficou decepcionada com o resultado. Como Cordova, ela teme que a multa da OSHA não seja suficiente para levar a empresa a criar mais distanciamento social na fábrica, como mostram os registros da a Smithfield.  Para Sibert, a multa de US$ 13.494 foi  muito baixa. “Isso não vai assustá-los”, disse ela. “Eles ganham tanto dinheiro em meia hora – ou menos.”

Em contraste, o Estado da Califórnia, que dirige seu próprio programa semelhante ao da OSHA, multou uma fábrica de carne em cerca de US$ 220.000 na semana passada por violações semelhantes. A OSHA se defendeu dizendo que emitiu a multa máxima permitida pela lei – US$ 13.494 – para citações por uma violação grave. Cada empresa recebeu isso e a JBS também recebeu uma multa de US$ 2.121 por uma infração “não grave”.

No entanto, os críticos disseram que seu problema não era com o valor em dólares para uma única violação; sua frustração é com a notificação da agência de apenas uma violação grave para cada fábrica. OSHA recusou comentários adicionais sobre os valores das multas.

Ambas as empresas lutaram contra medidas rígidas de fiscalização sobre o distanciamento social e quarentenas ordenadas pelo Estado que, segundo eles, aumentaram as taxas de ausência entre os trabalhadores.

Em meados de março, o presidente-executivo da Smithfield Foods, Kenneth Sullivan, enviou uma carta ao governador de Nebraska, Pete Ricketts, dizendo que tinha “graves preocupações” de que as ordens de isolamento social estavam causando “histeria”.

“Corremos cada vez mais um risco muito alto de que os funcionários da produção de alimentos e outros em funções críticas da cadeia de suprimentos parem de aparecer para trabalhar”, escreveu Sullivan em uma carta obtida pelo veículo de jornalismo sem fins lucrativos ProPublica. “Este é um resultado direto do governo reiterando continuamente a importância do distanciamento social, com o mínimo de detalhamento dessa orientação.”

Ele acrescentou: “O distanciamento social é uma sutileza que só faz sentido para pessoas com laptops”. Em uma carta de 30 de junho para a senadora Elizabeth Warren (Massachusetts) e o senador Cory Booker (Nova Jersey), Sullivan mais uma vez rejeitou as preocupações que os legisladores levantaram sobre o manejo do vírus em suas fábricas pela empresa.

“Por favor, entenda, as fábricas de processamento não foram projetadas para operar em uma pandemia mais do que os hospitais foram projetados para produzir carne de porco”, escreveu Sullivan. “Em outras palavras, para o bem ou para o mal, nossas fábricas são o que são. Quatro paredes, design projetado, uso eficiente do espaço, etc. Aumentá-las? OK. Mas como?”

A JBS flexionou seus músculos para reabrir suas portas antes de implementar muitas das medidas de segurança que as autoridades de saúde do condado de Weld determinaram para a fábrica de Greeley em abril, quando ordenaram o fechamento da fábrica devido a surtos de coronavírus, mostram os registros.

Os executivos da empresa conseguiram com sucesso a atenção do vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, e do diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em ingês), Robert Redfield, para ajudar a manter a fábrica funcionando. Em 10 de abril, quando a ordem de fechamento da fábrica foi enviada, Pence e o presidente Trump mencionaram a fábrica de Greeley no resumo do dia sobre coronavírus na Casa Branca, prometendo recursos de teste para a unidade.

Uma hora depois, o presidente-executivo da JBS USA, Andre Nogueira, agradeceu publicamente a Pence em um comunicado à imprensa. O porta-voz da Pence, Devin M. O’Malley, disse que outras fábricas de carne também foram ajudadas e que os “esforços do vice-presidente foram fundamentais para garantir que os americanos não experimentassem escassez de alimentos durante o pico do surto de COVID-19”.

No dia seguinte à ordem de fechamento do condado, Jill Hunsaker Ryan, diretora da agência de saúde do Colorado, escreveu um e-mail para o então diretor de saúde do condado de Weld, Mark Wallace, dizendo que havia recebido um telefonema de Redfield sobre a fábrica de Greeley.

“A JBS entrou em contato com o vice-presidente para quem o diretor Redfield me ligou”, escreveu ela no e-mail de 11 de abril. Redfield queria que as autoridades de saúde locais e estaduais enviassem “pessoas assintomáticas de volta ao trabalho, mesmo se suspeitarmos de exposição, mas elas não apresentam sintomas”, escreveu Ryan. Ela disse que concordava com isso se Wallace também concordasse.

Um funcionário do departamento de saúde estadual, que falou sob condição de anonimato por temor de retaliação por parte do governo federal, disse que eles atenderam ao pedido de Redfield por medo de que o estado fosse cortado da ajuda necessária do CDC para controlar a pandemia.

O funcionário confirmou que havia “forte envolvimento de altos escalões do governo federal”.

Confira a entrevista original, em inglês:

More than 200 meat plant workers in the U.S. have died of covid-19. Federal regulators just issued two modest fines.

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