O frenético sobe-desce da arroba e as relações humanas, por Enrico Ortolani

O professor titular da FMVZ-USP e colunista da Revista DBO fala sobre os efeitos da “febre da carne” no mercado
Enrico Ortolani – professor titular da FMVZ-USP, médico veterinário e colunista da Revista DBO  – [email protected]

Acompanho a pecuária de corte e os preços da arroba há pelo menos 45 anos. Descontando os períodos de inflação galopante da triste década de 1980, nunca vi um movimento tão fervilhante do valor da unidade de carne como estamos passando no momento.

Os entendidos em negócios do boi, inclusive da Scot Consultoria, cantaram a bola há três meses que a arroba subiria para algo como R$ 200,00. Alguns pecuaristas calejados duvidaram, mas esta marca foi batida facilmente. Todavia, nem os mais otimistas analistas pensavam que iria ocorrer uma “febre da carne” no mercado, fazendo com que a arroba galgasse os inacreditáveis R$ 229,00, nas bandas de São Paulo.

Entretanto dizem que alegria de pobre dura pouco e o preço se encontra em queda livre no momento e só Deus sabe quando irá se estabilizar de vez.

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Os entendidos descrevem que o “mercado” é frio e calculista, mas certamente boa parte das “pessoas” não o são. É lógico que todos os elos da cadeia pecuária devem ter seus merecidos lucros e atuarem de forma estratégica para venderem e reporem seus estoques, na melhor hora e da melhor forma.

Mesmo nos momentos de calmaria do mercado as negociações de gado provocam alguns contratempo, rusgas e resmungos entre compradores e vendedores. Porém, nunca vi tantos lamentos, mágoas e ressentimentos como nestes últimos 40 dias. A subida da arroba desencadeou uma energética “corrida ao ouro”, digo ao gado. Além do preço em alta, muito convidativo, somou o fato de passarmos por um longo veranico, excesso de lotação em muitas pastagens, final de período de arrendamento de área etc. Todos estes fatos favoráveis às vendas.

Na linha de frente acompanhei ou vi descrições de várias transações de gado durante a alta sem freios. Na mais maluca delas o vendedor, uma pequena sardinha, foi engolido por um cação, que foi deglutido por um tubarão, o qual foi devorado por uma baleia, em menos de 24 horas.

Trocando em miúdos, o pequeno pecuarista vendeu seu gado para três pessoas distintas, aceitando cada vez valores mais altos pelos compradores. O primeiro deles chegou a dar o dinheiro vivo, que por sinal foi devolvido, porém o “cação” não levou a “sardinha”. Certamente, os dois primeiros compradores ficaram muito constrangidos com a inconstância e falta de palavra do vendedor. Pelo menos eu acompanhei mais outros três negócios assim, e ouvi falar que isso se repetiu a rodo na minha região.

Quando começou a maré de baixas o contrário aconteceu. Negócios praticamente fechados foram desfeitos ou a nova oferta apresentada pelo comprador foi tão aviltante que o vendedor o amaldiçoou. E vem mais chumbo grosso pela frente até que os preços se estabilizem. Esse triste episódio me lembrou a irônica letra do samba “Pecado Capital” de Paulinho da Viola: “E é preciso viver. Pois, viver não é brincadeira não. Quando o jeito é se virar cada um cuida de si, irmão desconhece irmão!”

Esse vaivém do mercado, em especial nos dias de maiores altas, também mexeu com outros dois estratégicos segmentos. A grande pergunta que não se calava, nos momentos de pico, era se o consumidor interno conseguiria pagar pelo preço da carne nas alturas, passados o 13º salário e o período de festas?

A elevada subida do produto no gancho dos açougues provocou imediata substituição de carne de primeira pela de segunda, adiamento do churrasco na laje para perto do Natal, e substituição de carne bovina por frango, salsicha e outros produtos mais baratos. Uma quantidade enorme de consumidores com menor poder aquisitivo, com quem conversei, choramingou sem ter o direito de reclamar para os chineses ou para o Papa. Na esteira dessas atitudes e lamentos vieram as gozações, típicas dos brasileiros.

Porém, o pior chegou daqueles inimigos do consumo da carne bovina que pediram clamorosamente pelas redes sociais para que acontecesse um boicote ao produto por parte da população. E o mais chato nisso é que muitos deles acataram essa ideia.

Resumo da ópera?

A subida quase incontida e talvez especulativa do preço da arroba, que a primeira vista parecia ser uma boa para a classe pecuária, na minha opinião se voltou contra ela. Com certeza, dentre em breve o preço da arroba vai se estabilizar, mas as cicatrizes deixadas por esse sobe-desce ficarão, pois disseminaram desconfiança e mágoas entre muitos atores que atuam na pecuária, deixarão lembranças negativas por parte dos consumidores internos, que sempre bancaram nossa pecuária, e forneceram munição para aqueles que não aceitam nosso negócio.

Que essa malfadada elevação exagerada da carne sirva de lição para que numa próxima oportunidade a avareza do mercado não sobreponha o bom senso e o equilíbrio que devem nortear nosso profissionalismo e nossa vida.

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