Produtores do Oeste de Mato Grosso ameaçam greve se preço não melhorar

Mais de 700 produtores de leite, reunidos pelo whatsapp, estão mobilizados e aguardam uma resposta dos laticínios

No apagar das luzes de 2019, alguns produtores de leite do Oeste de Mato Grosso, insatisfeitos com o viés de baixa do preço pago pelos laticínios, começaram um movimento que se espalhou feito rastilho de pólvora: na virada do ano já eram mais de 700, reunidos em três grupos de whatsapp. As conversas, entremeadas de postagens religiosas e políticas, além dos cansativos bom dia, boa tarde, boa noite, apontavam para uma greve caso as indústrias não revissem sua política de preços. 

Logo surgiu um deputado disposto a “abraçar a causa”, levando para a Assembleia a proposta de criação de uma Câmara Temática; alguns produtores foram se destacando como lideranças do setor, e a discussão sobre se a política devia ser tratada como vilã ou aliada veio à tona: em ano de eleição municipal, que candidato a prefeito ou vereador não quer estar próximo de um grupo tão representativo… 

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Na continuidade do movimento, começaram a aparecer nos grupos de whatsapp ofertas de produtos para a atividade leiteira, conversas paralelas entre amigos e vídeos humorísticos, numa enxurrada de mensagens em que a palavra leite desapareceu quase que por completo. Natal, Ano Novo, é compreensível que os problemas sejam deixados em segundo plano.

Mas 2020 começou, e com ele veio uma preocupação generalizada: a falta de chuvas na região. Pleno janeiro e nada de água do céu por quinze, vinte dias. O problema não eram os pastos, que tinham se recuperado com as chuvas de dezembro, mas o milho para silagem, que se retorcia nas lavouras, antes de pendoar. Mas logo choveu, e no whatsapp foi também uma tempestade de mensagens de alegria e graças. Outra conversa que tomou corpo foi a necessidade de os produtores aproveitarem a união que se conseguiu para formar uma associação. 

Mais uns dias e o movimento, que foi perdendo alguns seguidores, talvez pelo excesso de mensagens alheias ao tema, pôde anunciar que as indústrias não iam baixar o preço do leite pago ao produtor. Uma conquista da mobilização, segundo alguns; fenômeno nacional, dizem os analistas, devido à queda na produção em função da saída de muitos produtores da atividade e do abate de vacas de leite na esteira da subida de preços da carne bovina. Levantamento do Cepea mostra que, neste início de ano, a concorrência entre empresas para garantir a compra de matéria-prima e abastecer seus estoques têm se elevado, resultando em altas de preços.

Mas os produtores querem mais do que a simples estabilidade dos pagamentos. Elaboraram um documento reivindicando das indústrias o pagamento do litro de leite baseado numa “média nacional”, e entre os dias 15 e 18 de janeiro todos os laticínios e sindicatos rurais da região receberam a visita de uma comitiva de produtores encarregada de protocolar a reivindicação. 

A greve não está descartada. Porém, nas mensagens do whatsapp os produtores observam que é o último recurso, e que torcem para que os laticínios entendam suas dificuldades em produzir leite num  momento em que milho e soja estão nas alturas, sem perspectiva de queda nos preços, e outros insumos também encontram-se em patamares elevados. A bola – ou o abacaxi – está com a indústria.

Por Sérgio de Oliveira, de Cáceres, MT

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