Quanto vale um pasto nativo no Pantanal?

Conheça o estudo dos cientistas da Embrapa Pantanal que mostra como as espécies do bioma podem ser valoradas nas fazendas de pecuária que não querem deixar para trás a tradição boiadeira do manejo

 

Gramínea catalogada como pasto nativo do Pantanal. Foto: Embrapa

Se por um lado há uma corrida frenética de cientistas em busca do melhoramento genético de plantas forrageiras, com o uso de técnicas avançadas para gerar pastagens mais nutritivas para o rebanho e produtivas – agronomicamente -, por outro há um grande movimento, também por parte da pesquisa, para manter um patrimônio de forrageiras que estão sob ameaça: as pastagens nativas com grande potencial produtivo do Pantanal. Ameaça de serem deixadas de lado como fonte de alimentação. Mas vale a pena ter pastagens nativas? A melhor forma para responder a essa pergunta foi fazendo contas, para mostrar ao produtor quanto, efetivamente, vale essa vegetação que, se bem manejada, tem grande potencial nutritivo.

A tarefa foi tomada por um grupo de pesquisa da Embrapa Pantanal, de Corumbá (MS), que chegou num valor preliminar: US$ 170 dólares por hectare ano. Pela cotação do dólar desta terça-feira (24/11), o valor equivale a cerca de R$ 905 – cerca de um terço do preço do bezerro em Mato Grosso do Sul.

Comitiva pantaneira. Foto: GovMS

O valor saiu de um estudo que avaliou o sistema de criação em pastagens nativas da fazenda experimental, da própria Embrapa na região, no hidrológico 2014/2015 (outubro de 2014 a setembro de 2015). A pesquisa foi divulgada no início de novembro. A conta de quanto vale um hectare de pasto nativo foi feita a pedido da DBO.

“Este seria o valor que considera a produção da vaca com bezerro ao pé para o ecossistema de pastagem, avaliado naquele ano. O valor depende das condições climáticas e foi estimado em função do cálculo da capacidade de pastejo, de 1,7 unidade animal (UA) por hectare por ano”, explica a zootecnista Sandra Santos, pesquisadora da Embrapa Pantanal, em Corumbá (MS).

Na conta, uma UA equivale a 450 quilos de peso vivo.  Sandra está encabeçando uma série de projetos para valorizar cada vez mais as espécies de forrageiras nativas do Pantanal. O objetivo é, justamente, incentivar a conservação de pastagens nativas das áreas úmidas e outras espécies que tenham grande potencial produtivo e também daquelas que tem adaptação às condições de seca e cheia da região.. Essas áreas prestam diversos serviços ecossistêmicos, que podem ser classificados como de provisão, suporte, regulação e cultural.

Sandra Santos, zootecnista e pesquisadora da Embrapa Pantanal. Fonto: Embrapa Pantanal

“Dentro de cada classe há diversos serviços. Portanto, nossa iniciativa foi fazer uma valoração parcial dos serviços de provisão de forrageiras prestados pelas pastagens nativas bem conservadas”, diz Sandra.

O projeto segue em frente. Agora, serão realizadas avaliações em fazendas de pecuaristas da região. Elas vão servir de fórmula matemática (algoritmos) para o lançamento de um aplicativo de celular que permitirá ao produtor pantaneiro calcular o valor de sua pastagem nativa. Outro lançamento da unidade já está disponível. Trata-se do “Guia para a identificação de pastagens nativas do Pantanal”, com dicas úteis para o produtor conhecer 103 espécies de forrageiras nativas do bioma.

As principais espécies nativas

  • Cortiça (Aeschynomene fluminensis)
  • Capim-de-capivara (Hymenachne amplexicaulis)
  • Grameiro, arrozinho (Leersia hexandra)
  • Capim-arroz (Luziola subintegra)
  • Arroz-do-brejo, capim-arroz (Oryza latifolia)
  • Mimoso-de-talo (Paspalidium geminatum)
  • Praieiro, capim-guaçu (Paspalum fasciculatum)
  • Grama-do-carandazal (Steinchisma laxum)

Por que a nativa é uma boa escolha?

Projetos como esse servem de alerta aos produtores que acham melhor o cultivo exclusivo de espécies exóticas e pouco adaptadas à região. Mas, para os pesquisadores, se bem manejadas, as pastagens nativas podem ser uma refeição de qualidade para o gado.

“As pastagens exóticas mais agressivas são a grama castela, que tem invadido muitas bordas das lagoas na área estudada, e a braquiária d’água, que é invasora de área com influência de rios. Essas espécies são consumidas pelo gado, mas são de qualidade inferior. O problema é que elas são agressivas e podem impedir o desenvolvimento de muitas gramíneas nativas de excelente qualidade, diminuindo a diversidade de forrageiras que confere melhor valor nutritivo da dieta animal e resiliência ao ecossistema”, explica Sandra.

Apesar dos esforços em levantar a bandeira à nativas, o bom desempenho delas também depende do ritmo de clima e do tipo de solo da fazenda. “O manejo das pastagens no Pantanal é extremamente complexo. Nós estamos trabalhando com manejo holístico e adaptativo e, dentro deste contexto, decidimos avaliar uma forma de quantificar os serviços das pastagens de melhor qualidade que ficam nas áreas úmidas, uma forma de conservar as forrageiras nativas on farm”, afirma Sandra.

Pantagens nativas bem manejadas podem render um excelente alimento para o rebanho pantaneiro. Foto: Embrapa Pantanal

Tradição pantaneira

O pecuarista Paulo Mainieri, da fazenda Cantagalo, de cerca de 15 mil hectares de pastos na região de Corumbá, é um dos produtores entusiastas pelas espécies nativas. Ele toca os negócios da pecuária que está a cerca de 70 anos na família.

“As pastagens nativas fazem parte da história da propriedade e da nossa identidade cultural. Temos o foco em produção e produtividade, mas também não abrimos mão da preservação ambiental, especialmente das forrageiras”, diz Mainieri.

O produtor, que é paulista da região de Campinas, estava em rota de viagem à fazenda quando conversou com a DBO.  Ele conta que o ano não foi muito bom para a região por causa dos intensos e inúmeros focos de incêndio. Mas, no seu caso, foi salvo do pior.

“Estou indo justamente ver como está a fazenda.  Pelo que os peões me relataram, até houve sim incêndios, mas não na proporção como as demais regiões afetadas no Pantanal”, diz Mainieri.

A propriedade de Mainieri é uma fazenda típica da região. Com foco na produção de bezerros, a Cantagalo está conduzindo seus negócios com o mínimo de intervenção no ambiente.  Ele conta que, apesar de fazer parte de Corumbá, geograficamente a propriedade “parece estar no meio do nada, isolada”, diz.  Sem luz elétrica, os peões guardam a tradição das comitivas de boiadas. Houve épocas que o transporte de gado para a venda na própria região levava cerca de dez dias de viagem. Hoje, com compradores mais próximos, Mainieri conta que a viagem não dura mais do que dois dias. Se tudo correr bem.

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