Transgênicos: A luta (contra) continuará?

Autor desmistifica as campanhas que, sistematicamente, tentam praticar um assassinato de reputação contra os OGMs

Permita-me o leitor que eu recomende a leitura de um artigo muito ilustrativo, escrito por Maria Teresa Pedroso (pesquisadora da Embrapa) e Walter Colli (professor da USP), contendo uma narrativa histórica do ativismo anti-transgênicos no Brasil. O artigo tem o título “Ideologia e ciência na questão dos
transgênicos”.

O artigo relata, de forma cronológica e didática, uma série de fatos ligados à trajetória de OGMs (Organismos geneticamente modificados) no Brasil, em especial eventos vinculados à CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança). Mostra também os desencontros no seio do governo, com embates entre a CTNBio (um órgão essencialmente técnico e científico) e o CONSEA, que é o conselho ligado à Presidência da República que trata da segurança alimentar e nutricional. Por oportuno, é interessante observar a relação das instituições participantes do CONSEA e da CTNBio 

Histórico do ativismo

Os autores lembram que, em 1999, algumas ONGs lançaram a “Campanha por um Brasil livre de transgênicos”, a qual ainda persiste, com um site ativo na Internet. Desde a sua criação, essa Campanha divulga uma narrativa fortemente contrária aos OGMs. Os principais argumentos são repetidos
exaustivamente e relacionam-se a supostos problemas ambientais, sociais, culturais e econômicos.

Agora saia desse site por um instante e procure na literatura científica especializada uma única (repito: uma única!) referência de problema de saúde devido ao consumo exclusivo de um alimento com origem em OGMs. Pode ser uma simples alergia. Não será possível encontrar, porque nunca ocorreu. E já
foram produzidas dezenas de bilhões de toneladas de soja, milho, canola e outros cultivos transgênicos, cultivados em larga escala, para consumo humano direto ou indireto. Não basta afirmar, é obrigação de quem denuncia apresentar as provas, in casu, os estudos científicos devidamente publicados, que comprovem as afirmativas.

Toxinas em alimentos

Entretanto, pode ocorrer que um alimento produzido a partir de OGMs contenha substâncias tóxicas ou alergênicas, naturalmente presentes em alimentos não transgênicos, que serviram de base para a introdução de um gene específico por transgenia. A soja transgênica, por exemplo, contém mais de 99,99999% do genoma da soja convencional, portanto a composição dos alimentos derivados de soja OGM ou convencional é altamente similar. Já foi aventado que muitos dos alimentos convencionais, consumidos há milênios, não resistiriam à bateria de testes aos quais são submetidos os OGMs para
serem liberados. A seguir listamos alguns exemplos de toxinas presentes em alimentos “naturais” ou “convencionais” e, ao final do artigo, listamos algumas referências onde as informações podem ser comprovadas.

  1. Glicosídeos cianogênicos – Encontrados em partes de, aproximadamente, 3.000 espécies de plantas, entre elas mandioca-brava, ameixa, damasco, bambu, seringueira, maçã e pêssego. Esses vegetais produzem mais de 60 glicosídeos cianogênicos diferentes. Concentrações acima de 0,1 g por kg são consideradas de alto risco, pois podem liberar ácido cianídrico, que inibe a enzima citocromo C
    oxidase, interrompendo a respiração celular.
  2. Glicosinolatos – Compostos que contêm enxofre, de ocorrência em crucíferas como repolho, couve, couve-flor, brócolis, rabanete, nabo e mostarda. Uma vez ingeridos podem competir com o iodo, inibindo a associação com a tireoide e causando bócio.
  3. Glicoalcaloides – Encontrados em solanáceas como batatas, tomate ou berinjela. Em geral, humanos parecem ser mais sensíveis à intoxicação por glicoalcaloides do que outros animais. Estima-se a dose tóxica para o homem em 200mg por kg. Essas substâncias são inibidores da acetilcolinesterase, provocando desordens neurológicas e também ruptura da membrana celular no trato gastrointestinal. A sua ingestão em teores tóxicos interfere com o metabolismo do cálcio no organismo, conduzindo à hipocalcemia e raquitismo.
  4. Nitratos – ocorrem naturalmente nos vegetais como fonte de nitrogênio, podendo ser encontrado em altos teores em beterraba, alface, espinafre, batata, cenoura, couve e repolho. A exposição contínua a nitratos pode formar nitrosaminas, que têm potencial indutor de câncer. A exposição a nitratos tem sido associada à síndrome de morte infantil súbita, posto que níveis altos de nitratos nos alimentos ou na água prejudicam o transporte de oxigênio no sangue. A OMS cita o limite seguro de ingestão em 3,65 mg/dia, por kg de peso vivo.
  5. Carcinógenos – Substâncias alcaloides (alcaloides pirrolizidínicos), glicosídicas (cicasina) e fenólicas (safrol) são alguns dos exemplos de carcinógenos encontrados em vegetais amplamente consumidos pela
    população, tais como pimenta-preta, óleos essenciais extraídos de sassafraz e confrei.

Dirá o leitor: “eu consumo todos os produtos listados acima há décadas e nunca tive problemas de saúde”. Esta afirmativa não é surpreendente, e pode ser atribuída a diversos fatores, como: diversidade de alimentos (não há ingestão acumulativa), baixa dose das substâncias tóxicas, processamento industrial, preparo dos alimentos – em especial com uso do calor, que inativa a maioria desses princípios tóxicos ou antinutricionais – ou baixa sensibilidade individual.

Ou seja, o perigo potencial de uma substância tóxica, presente em um alimento, não necessariamente representa um risco para o seu consumo. No entanto a referência é importante porque, mesmo sabendo-se que estes alimentos possuem princípios potencialmente perigosos à saúde, eles são liberados e consumidos em larga escala, pelo baixo risco em função dos fatores antes mencionados. O que dizer, então, de OGMs, que são esquadrinhados por baterias de testes severos, que somente permitem que
prossigam até o mercado se forem considerados seguros?

Transparência, por obséquio

Ao final da leitura do artigo que recomendamos anteriormente sobressai a sensação de que,  aparentemente, estávamos mergulhados em um mundo de trevas e obscurantismo, completamente divorciado da realidade e da dinâmica científica do século XXI. E não se tratava de discutir faketeorias de que a Terra é plana ou que nosso planeta é o centro do universo, porém algo tangível,
muito mais fácil de comprovar.

A sociedade sabe quem financia as pesquisas com transgênicos, quais são as instituições envolvidas, sejam elas públicas ou privadas. São públicos os documentos que detalham os objetivos e os interesses para a realização de pesquisa e desenvolvimento de transgênicos. Entrementes, ao final da leitura
ficam no ar duas perguntas: Quem se beneficia do ativismo anti-transgênicos? Quem o financia? São perguntas formuladas durante as duas últimas décadas, cujas respostas tentativas circulam nas redes sociais. Porém elas nunca foram respondidas com transparência pelas entidades que se dedicam ao ativismo, para que a sociedade pudesse decidir seus rumos, dispondo de todas as informações necessárias.

Cremos haver chegado o momento de tirar o véu de mistério que encobre o ativismo, esclarecendo para a sociedade quais os reais interesses, quem se beneficia e quem financia estas ações. E sem esconder-se sob o manto genérico e difuso de proteção do consumidor ou do ambiente, sem que esteja lastreado em sólida fundamentação científica. Ou seja, afirmou tem que comprovar, além de qualquer dúvida razoável.

*As opiniões expressas nos artigos não necessariamente refletem a posição do Portal DBO.

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